Estava de pé quando/ minha boca se entreabriu./ Ouvi alguma coisa cair./ Um amor escorregou/ docemente/ raspando áspero/ do coração/ até o orifício
domingo, 17 de abril de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Ode descontínua e remota para flauta e oboé
Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio - É um CD gravado por Zeca Baleiro em 2003, em que o artista maranhense em parceria com a poeta Hilda Hilst musica parte do livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão. Há dois anos tento comprar esse disco, mas ele é tão bom que quase que não existe.
Canção IV - Canto de Ariana
Canção V
Canção IX
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Encontraria a Maga?
Desde que ouvi estas palavras escorregarem de uma boca durante o meu primeiro ano do ensino médio, eu busquei a Maga, e sentir um beijo na boca da Maga. Procurei-a por todas as ruas de Paris, por todas as praças, no idioma e na Argentina, e acabei por descobrir que eu mesma sou a Maga, que meu nome pode ser Lucía, pode ser Iara. Minha boca está dentro da Maga, e lá eu me encontro inteira. Eu sou todas as palavras tolas e sem sentido que um dia escorregaram de sua boca.
7
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim como uma lua na água.
(O Jogo da Amarelinha - Júlio Cortázar)
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Miúda
Miúda anda nua de sentidos
Miúda tem olhos
sem rosto
e desse jeito
nada ampara
seu mundo
magoado
e miúdo.
Miúda sente
o rio morno
descendo
pelo corpo
-um corpo
tão miúdo
que nem tem
nervuras.
Uma vez
viu alguém
vazando
nos olhos
achou que um rio
rolava
naquele corpo
achou que
debaixo do peito
tinha um sapo
achou que
o sapo
tinha nervuras.
Desde então,
Miúda tende
à ínfimas nervuras
Tem um sapo pequeno
e quase que não existe.
Miúda tem olhos
sem rosto
e desse jeito
nada ampara
seu mundo
magoado
e miúdo.
Miúda sente
o rio morno
descendo
pelo corpo
-um corpo
tão miúdo
que nem tem
nervuras.
Uma vez
viu alguém
vazando
nos olhos
achou que um rio
rolava
naquele corpo
achou que
debaixo do peito
tinha um sapo
achou que
o sapo
tinha nervuras.
Desde então,
Miúda tende
à ínfimas nervuras
Tem um sapo pequeno
e quase que não existe.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Carta ao menino Manoel
É bobeira minha que eu não lhe conheço com os olhos, mas sua palavra-menina brinca no caminho que faz do meu olho até o coração. Você, que é menino do mato, que aperta parafuso no vento, que deixa os caracóis e as lesmas gosmarem umedecendo sua boca de dizer meninices, me faz sorriso na boca sempre que me enxergo, de alguma forma, correndo nos pés de um menino qualquer, descalço, na terra, molhando a poeira no rio, gritando em língua de sapo ou de ave, dizendo em língua de avó, desinventando coisas. Assim, a lesma gosma no meu olho, e o umedece.
Não há coisa que mais me alegra que saber mais de ignorâncias, saber mais de meninices, que não saber quase tudo.
Sobre nadas temos profundidades.
Para mim, a pureza do cisco também dá alarme.
masco
as letras
monto
monstros
de ostras
e outros
planetas
P.s.: A onça comeu-me também.
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