sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Boa tarde. Te amo.


Boa tarde. Te amo. Foda-se. Ser educado ao ponto de dizer “tudo bem?” não é o mesmo que ligar, querer voltar correndo. Quem está com você? O que você comeu? Tem tomado os remédios? Foda-se. Se quiser tomar toma, se não quiser, foda-se. Não gostou da salada? Faça a sua ou morra. Não gostou do meu vestido? Achou que pareço grávida? Foda-se. Tem alguém querendo a mesma tatuagem? Foda-se.
Vamos tentar fazer uma previsão: vai se foder ou morrer aos 51. Fodo-me. Não tenho emprego. Gosto de comprar livros. Fodo-me. Estudar 4 anos para ter um salário de merda. Não faço as unhas. Não perco peso. O barco nunca passa. Cavalo branco. Nunca nasce um filhote. Foda-se.
Vai acidentar-se até que morra. Sete ou oito vezes, já foi metade. Quem se importa? Não uso drogas, mal bebo, não canto músicas, não dou pra todo mundo e tem sempre alguém que faça isso por mim. Por que é que sou uma grande babá mal remunerada? Boa tarde, senhores. Vou dormir quando eu quiser.
Buzinam na rua. Gritam. Deixam cachorros soltos. Ateiam fogo nas casas. Matam por nada. Roubam animal de estimação.
Mais tarde ligo pra saber se está tudo bem. Se não estiver, continuo viva. Ainda quero a tatuagem e ser poeta. Continuo viva. Ainda como, bebo água, aspartame. Mas dá câncer. Não me importa. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Caixa de Pandora


Abri a caixa

O pó
manifestou-se
dançante
Subiu
bailarino
preto
entrou pela narina
-Instalou-se

Semente
voadora
se dispersa
salta
voo
de asa delta

Cigarra a porta
das formigas
cantarola
 abrigo

Onde possa
cedo ou tarde
-Só dormi
durante
o inferno

Instalar
um teleférico
marca passo
banda larga

alguma coisa
que te traga
pelo ar
como fumaça

e

logo logo
se desfaça

sábado, 12 de janeiro de 2013

Água de animal


Eu discordo.
Chorar é meio
burro

Um rio
ruidoso
desce o rosto:
Molhou tudo,
vermelho nas bolsinhas
Porque é que eu chorei mesmo?

Nem há bem um motivo
Nada de finesse, nada de lógico

o biológico
Composição
Canal lacrimal
Gordura,
Água,
Sal mineral.

Acabou.
O momento molhado se vai
fica com menos água
bolsinha em baixo do olho
óculos de sol

A dorzinha ainda dói lá.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Les mots


Vídeo feito por mim, Edmarcia Tinta e Keila Dutra para a Semaine de la langue française na Unesp de Assis.
http://vimeo.com/39805901

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Historinhas do eu no meio (pode mudar se não gostar)

   Uma vez me contaram essa história. Fumávamos um cigarro. Mentíamos que fumávamos para ver a fumaça subir lentamente em bolas. Uma vez era uma casa muito muito distante e eu forjava o momento da história. Um menino desses bem magros, que têm uma cor perambulante entre o amarelo-febre e o ocre, de uma cor crua, começou a me contar de uma vez que ele pedalou tanto que a bicicleta era ele próprio. Magrinho e munido de besourinhos coçadores, passeou até o Japão e comeu sushi com as mãos. Uma vez ele andou de avião, mas não foi nessa do Japão, porque o Japão é bem fácil: ele cavou para sempre e chegou ao outro lado. Uma vez ele sobreviveu a um deserto comendo miojo e chá verde. Uma vez o banheiro masculino e o feminino eram casebres horrendos. Uma vez, numa estrada amarela, ele conheceu Mundana, Sem-freio e Presbítero, que era só um epíteto. Uma vez uma curandeira fez magia com Toddy. Ela salvou sua vida. Uma vez o mundo girou sete vezes com uma poção indígena que lhe deram. Era algo com limão, gelo, açúcar... Jogou uma partida de  basquete ao final. Uma vez ele teve amigo nunca visto. Uma vez trajado de joão-de-barro, construiu casa de dois andares nos próprios pés. Cuspe e areia dão bastante liga. Uma vez a mãe e o pai brigavam e ele entrou numa cápsula que levava à lua. Ainda bem. Uma vez ele foi comer um bacalhau na Europa e se apaixonou pela palavra quase idioma, quase perfeita, que saia lentamente da boca dele e da outra boca e que se beijavam em águas do São Francisco e do Tejo. Que se entrecortavam e se trançavam formando juntas uma palavra banana caramelizada. Uma palavra delícia. Desde então todas as suas palavras são lentas e macias. Uma vez uma nuvem branquinha e lenta de palavras. As palavras amor. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Historinhas

Uma vez eu sonhei com um livro. Ele era grande e quadrado. Colorido. Chamava "olho de boca". Uma vez eu queria ser outra agora mesmo. Uma vez minha mãe fez massinha de farinha pra eu brincar e eu sujei o chão com corante de bolo. Era rosa, nome da minha tia. Uma vez eu fumei um cigarro. Uma vez uma francesa disse que eu tenho cara de hispânica. Uma vez eu tinha vergonhas de algumas coisas que ainda tenho um pouco. Uma vez eu queria morrer. Várias vezes. Uma vez eu tive um gato Márcio. Uma vez eu namorei um frango. Uma vez eu nadava como peixe bem rápido. Uma vez eu tive um castelo. Uma vez eu fui pra Itanhaém e tomei sorvete com muito confete e minha vó também. Uma vez eu tive um namorado que desenamorou-se de mim. Uma vez (agora há pouco) todo mundo ficou grávido, até a Sandy do Júnior. Uma vez eu passei na Unicamp. Uma vez eu beijei o menino debaixo da árvore e amo ele até hoje. Uma vez eu tomei chuva e a cor da minha blusa ficou muito mais bonita. Uma vez eu tirei foto das bolhas do tanque. Uma vez eu morei com vadias elementares. Uma vez eu fui pra São Paulo ver o museu. Uma vez eu fui ver o Arnaldo e ele tava atrás da porta. Uma vez eu conheci a Júlia e amei ela. E a Luana. Uma vez eu brinquei com a Mi por treze anos. Uma vez eu beijei pela primeira vez o no ônibus da viagem. Ele era mais novo que eu. Uma vez eu fui até a casa do menino e nós brincamos de pintar o rosto e namoramos. Uma vez eu vi um bombom gostoso e ele chamou-se Cássia. Uma vez meu irmão me salvou de um grilo. Ele sempre me salva das coisas que pulam. Uma vez minha mãe casou com meu pai e eles namoraram no dia 26 de janeiro. Uma vez eu nasci às 10 da manhã. Foi só uma vez, que eu me lembre.